O primeiro-ministro Andy Burnham anunciou que está "aberto" a que o Reino Unido peça desculpas formais pelo seu papel no comércio transatlântico de escravos, mas traçou uma linha firme nas reparações financeiras. Numa declaração que consegue ser simultaneamente historicamente consciente e fiscalmente conservadora, Burnham disse que queria um "diálogo com os afetados" e estava aberto a "apelos a um pedido de desculpas", mas insistiu que as reparações "não são a resposta certa".

O Grupo Parlamentar Multipartidário (APPG) para as Reparações Africanas acolheu com agrado a abertura ao pedido de desculpas, com a presidente Bell Ribeiro-Addy a dizer ao programa Today da BBC Radio 4 que a questão não era apenas sobre dinheiro. "O reconhecimento não é o mesmo que compreensão", disse ela, acrescentando: "Até pedirmos desculpa, nunca estaremos em pé de igualdade... deveria ser uma família de nações - uma Commonwealth - e simplesmente não é o caso." Ribeiro-Addy, deputada por Clapham e Brixton Hill, notou que, tanto quanto sabe, nenhuma fatura de reparações financeiras foi entregue ao Reino Unido, pelo que focar no dinheiro perde o sentido. "A minha preocupação é o foco nas reparações financeiras, e acho isso profundamente problemático e que não ouviu bem o que as pessoas disseram", afirmou.

O timing dificilmente é coincidência: a cimeira dos líderes da Commonwealth nas Caraíbas está iminente, e o rei Carlos III está atualmente em digressão pela região, onde os apelos a um pedido de desculpas foram renovados. Na primeira etapa, nas Bahamas, o rei referiu o "sofrimento do passado". Mais tarde, na Guiana, visitou o local de uma rebelião de pessoas escravizadas contra as autoridades britânicas. Burnham, por seu lado, descreveu o comércio transatlântico de escravos - quando africanos foram traficados para as Américas - como uma "violação brutal e bárbara" e disse que a Grã-Bretanha deve "encarar o passado".

Mas o governo britânico nunca pediu desculpas formais pela escravatura nem ofereceu reparações, e Burnham mantém-se fiel à política dos seus antecessores. Num artigo para o Guardian, escreveu: "Não penso que os britânicos de hoje possam ser responsabilizados por erros históricos, por mais hediondos que sejam, que aconteceram numa era diferente, sob leis diferentes e nos quais não tiveram qualquer participação pessoal." No entanto, propôs um "diálogo estruturado", acrescentando: "Ouvir os apelos a um pedido de desculpas formal em nome do Estado britânico fará parte importante deste processo. Estou aberto a eles." Uma fonte governamental disse à BBC que isto era "moralmente a coisa certa a fazer".

A primeira-ministra das Barbados, Mia Mottley, que tem procurado reparações, acolheu com agrado a declaração de Burnham e disse que se envolveria de boa-fé, continuando ainda assim a procurar justiça reparatória. Nem todos foram tão conciliadores. Denis O'Brien, fundador da The Repair Campaign, considerou a declaração dececionante e disse que não ia suficientemente longe. "O governo britânico deve parar de obfuscar e dar um pedido de desculpas completo e formal agora", disse. "Este seria um primeiro passo significativo e simbólico rumo à justiça reparatória."

Downing Street aparentemente acredita que fortalecer a Commonwealth é do interesse do Reino Unido, especialmente com a China e a Rússia a procurarem influência - o presidente Vladimir Putin acolheu uma cimeira Rússia-África em Moscovo apenas esta semana. O contexto histórico é gritante: desde o século XVI, as autoridades inglesas e a monarquia foram participantes proeminentes no comércio de escravos que durou séculos. A Grã-Bretanha também desempenhou um papel fundamental no seu fim, através da aprovação pelo Parlamento de uma lei para abolir a escravatura em 1833. Como parte dessa lei, os proprietários de plantações britânicos foram pagos pela perda das pessoas que tinham escravizado. O Reino Unido só terminou de pagar a dívida incorrida para cobrir esses pagamentos em 2015. Um juiz da ONU descreveu recentemente a dívida escravista do Reino Unido de 18 biliões de libras como uma subestimação - um número que, presumivelmente, faz até um pedido de desculpas simbólico parecer a opção mais barata.