Durante boa parte de sua carreira, o trabalho de Carlos Santos envolvia ficar preso no meio da Amazônia. Santos é caminhoneiro na BR-319, uma perigosa estrada de terra no Brasil que corta uma parte crítica da floresta tropical. "Você sabia quando estava entrando", disse ele sobre a estrada. "Mas nunca sabia quando sairia do outro lado."

Certa vez, Santos levou 22 dias para percorrer os 870 quilômetros da rota. Uma chuva inesperada castigou a rodovia durante a estação seca, deixando grandes poças de lama que atolaram comboios de caminhões. "É um teste de sobrevivência na selva", disse ele. "O tempo passa devagar. Você tem que racionar comida e água." À noite, Santos pendurava uma rede na cabine do caminhão e observava onças, antas e cobras atravessarem a estrada à sua frente. Durante semanas, ele desatolou veículos de valas, tomou banho em rios próximos e esperou que maquinário pesado puxasse os caminhões da lama, um por um.

Quando finalmente chegou em casa, Santos descansou alguns dias e depois voltou para outra viagem pela 319. "Voltei porque gosto disso", disse ele. "É um desafio e tanto."

Mas há outra razão para se suportar tais condições, além do gosto pela aventura. A BR-319 é a única estrada que conecta o estado do Amazonas, lar de 4,2 milhões de pessoas e duas vezes maior que o Texas, ao resto do Brasil. Agora, após décadas de batalhas judiciais e desafios de grupos ambientalistas e órgãos reguladores, trechos da rodovia estão sendo asfaltados, e os planos de pavimentar toda a rota estão avançando.

O asfaltamento da 319 é uma demanda antiga de muitos na região, que sentem que seu isolamento impede o desenvolvimento econômico. "Por que deveríamos ser esquecidos?", perguntou Santos. "Por que o estado do Amazonas não tem o direito de estar conectado ao resto do país?" Mas a decisão não é tão simples. Cientistas alertam que pavimentar a estrada conectará regiões antes inacessíveis da Amazônia às suas áreas mais pressionadas, levando a um boom de desmatamento com consequências terríveis para o clima global. O bioma atualmente armazena uma estimativa de 150 a 200 bilhões de toneladas de carbono em suas plantas e solos, ajudando a compensar as emissões de gases de efeito estufa de atividades como a queima de combustíveis fósseis. Quando a floresta é derrubada e queimada, esse carbono armazenado é liberado de volta na atmosfera, alimentando as mudanças climáticas. Grupos indígenas que vivem na área também dizem que o projeto representa uma ameaça existencial para suas comunidades.

Em maio deste ano, antes que a pavimentação entrasse em pleno vapor, acompanhei Santos em sua rota para observar como a 319 e a floresta que ela atravessa já estão mudando. Nos encontramos às 3 da manhã em um centro de distribuição nos arredores de Manaus, capital do Amazonas e lar de mais de 2 milhões de pessoas. Apesar de seu isolamento, Manaus é um importante polo industrial, legado de incentivos fiscais que atraem indústrias desde a década de 1960. A grande maioria dos produtos atualmente entra e sai da cidade por barco ou por avião. Defensores do asfaltamento da 319 argumentam que essa dependência aumenta os custos, prolonga os prazos de entrega e deixa a região vulnerável a interrupções na navegação fluvial causadas por secas severas, que se tornaram mais comuns.

Santos nasceu e foi criado em Manaus e dirige caminhão desde os 18 anos. "Nunca fui fã de ficar trancado numa sala em frente a um computador", disse ele. Agora com 45 anos, é afável e tem um sorriso fácil. Sua barriga quase toca o volante, e sua barba grisalha bem aparada combina com o restante do cabelo nas laterais da cabeça. Uma longa carreira dirigindo pelas estradas esburacadas do Amazonas deixou-o com problemas nas costas.

Saímos do centro de distribuição em um impecável caminhão semi-reboque azul brilhante, menor e mais ágil do que alguns dos veículos maiores que são regularmente vistos atolados ou capotados em meio à lama da 319. O caminhão pertencia à Bemol, uma importante varejista da região amazônica, e transportava grandes eletrodomésticos de cozinha, móveis e medicamentos. Nosso destino era Porto Velho, capital de Rondônia, que fica na outra extremidade da rodovia.