Politics
18 de setembro de 2026
The Guardian Europe
Trabalhadoras sexuais de Delhi descobrem que a única coisa mais difícil do que provar que você existe é provar que você pode votar
Trabalhadoras sexuais de Delhi estão sendo sistematicamente apagadas das listas eleitorais por um processo burocrático que exige documentos que nunca tiveram, porque nada diz democracia como excluir os mais marginalizados.
Fileiras de lojas de ferragens e peças de automóveis margeiam a Garstin Bastion Road, com placas desbotadas amontoadas acima de suas persianas. De dia, é uma das avenidas comerciais mais movimentadas de Old Delhi. Mas ao cair da noite, a GB Road, como é conhecida localmente, se transforma em uma das zonas de prostituição mais notórias da cidade.
Estima-se que 2.800 trabalhadoras sexuais vivem e trabalham em bordéis que ocupam os andares superiores de prédios dilapidados, com entradas escondidas atrás de escadas estreitas e portas sem identificação. Mulheres sentam-se em bancos de plástico sob as escadas, chamando os homens que passam na rua, enquanto outras observam das janelas acima, com os olhos seguindo o movimento abaixo antes que os clientes sejam direcionados para cima.
Os desafios que as mulheres da GB Road enfrentam são numerosos e bem documentados — de riscos à saúde a abusos, dívidas a saneamento precário. Agora elas enfrentam uma nova luta: o controverso processo de reforma eleitoral da Índia. A revisão especial intensiva (SIR, na sigla em inglês) da Comissão Eleitoral é um exercício nacional no qual as listas eleitorais encolheram em mais de 58 milhões de eleitores nos 13 estados cobertos nas duas primeiras das três fases principais. Em Delhi, coberta na terceira fase, a escala de exclusão é a mais alta registrada em termos percentuais: 4,76 milhões de nomes — 33% do eleitorado anterior da cidade — não aparecem na lista preliminar publicada em 31 de agosto.
O governo diz que a SIR visa "purificar" as listas eleitorais, removendo eleitores inelegíveis, incluindo supostos migrantes indocumentados. Críticos acusam o governo de Narendra Modi de usá-la para atingir eleitores de minorias e remodelar as listas eleitorais de maneiras que possam beneficiar seu partido, o Bharatiya Janata (BJP). Porque nada diz "fortalecendo a democracia" como dificultar o voto de pessoas marginalizadas.
Na GB Road, a proporção dos excluídos é ainda maior. Dados compartilhados por autoridades que supervisionam cerca de 1.300 eleitores na área mostram que cerca de 650 eram trabalhadoras sexuais na lista eleitoral anterior. Destas, pelo menos 500 foram marcadas como "transferidas" — ou seja, mudaram de casa ou local — ou não conseguiram estabelecer sua elegibilidade por falta de documentação. Isso é mais de três quartos das trabalhadoras sexuais na lista local, caso você esteja se perguntando se isso é coincidência.
Uma delas é Beauty*, de 36 anos, que vive na GB Road há mais de duas décadas. Ela obteve seu primeiro título de eleitor em 2008. Na época, o endereço onde morava e trabalhava como trabalhadora sexual e a verificação por um funcionário do governo chamado de oficial de nível de seção (BLO) eram suficientes para colocá-la na lista eleitoral. Ela votou em eleições anteriores.
Mas sob as novas regras, os eleitores tiveram que estabelecer elegibilidade provando seu vínculo com a lista eleitoral anterior relevante ou apresentando documentos prescritos, como passaporte, certidão de nascimento ou certificado de escolaridade — uma trilha de papel que Beauty teve dificuldade em reconstruir. Traficada aos 16 anos e trazida para os bordéis da GB Road, ela não tem contato com sua família. Ela tem um cartão Aadhaar, o documento de identidade biométrico da Índia amplamente usado para estabelecer identidade e acessar serviços governamentais, com seu endereço na GB Road. Mas o Aadhaar não é prova de cidadania e não estabelece, por si só, elegibilidade para votar no processo da SIR.
Ela tentou obter uma cópia de seu certificado de conclusão do ensino médio, que é evidência de escolaridade, na vila no Rajastão onde cresceu. Um de seus clientes regulares dos últimos 10 anos — um homem que ela se refere como seu marido — concordou em ajudar a localizar o registro antigo, mas falhou.
"Se eu tivesse os papéis para mostrar a certidão de nascimento do meu pai, ou mesmo meu próprio certificado de conclusão do ensino médio, então eu poderia provar quem sou", diz ela. "Mas como posso voltar à minha vila para pedir essas coisas quando meu tráfico trouxe tanta vergonha à minha família que eles não me aceitam mais?"
Agora Beauty perdeu a esperança — e, por enquanto, seu voto. Seu nome foi deixado de fora da recente lista eleitoral preliminar de Delhi. Para ela, o título de eleitor significava mais do que
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