Alia - não é seu nome real, por razões óbvias - entrou num táxi no ano passado com sua prima e fugiu centenas de quilômetros de sua vila até Cabul. A jornada, com ambas as mulheres cobertas da cabeça aos pés, exceto pelos olhos (conforme as regras), foi excepcional e arriscada: a qualquer momento, inspetores talibãs poderiam pegá-las violando a proibição de mulheres viajarem longas distâncias sem um acompanhante masculino. Mas elas passaram por todos os postos de controle ilesas, porque às vezes o universo tem senso de humor.

"Inventei uma desculpa para minha família, dizendo que vinha aqui para encontrar minhas amigas e ex-colegas de classe. Mas não é verdade. Elas não estão aqui. A verdadeira razão é que, se eu ficasse em Daykundi, seria forçada a me casar", diz Alia, agora com 19 anos. Em vez disso, ela chegou a Cabul com um plano: matricular-se num curso de inglês. Esses cursos particulares de curta duração - disponíveis apenas para quem pode pagá-los - são, junto com as madrasas focadas em educação religiosa, as únicas opções para meninas após o ensino primário no Afeganistão. Nenhum substitui a escolaridade formal, mas, hey, já é alguma coisa.

Já se passaram quase cinco anos desde que os talibãs impediram meninas acima de 12 anos de irem à escola. Várias razões foram oferecidas, nenhuma convincente. Anos em que meninas como Alia cresceram sem a educação que queriam. Anos em que carreiras foram fechadas, deixando milhões de meninas afegãs com apenas uma opção: casamento. A história de Alia é incomum, não apenas por sua coragem, mas porque sua família tem recursos para buscar as poucas oportunidades disponíveis - uma raridade num país onde três em cada quatro pessoas não conseguem atender às necessidades básicas, segundo a ONU.

"Antes da proibição, meus pais me incentivavam apaixonadamente a ir à escola. Diziam que eu certamente poderia realizar meu sonho de me tornar piloto. Mas agora dizem que o melhor para mim é casar, porque não posso ir à escola, à universidade, nem trabalhar", diz Alia. Ela tem recebido propostas de casamento e teme ter que aceitar uma, preocupada que a nova família não lhe dê a liberdade que seus pais dão. "Algumas famílias podem ser muito restritivas. É possível que me digam para esquecer meus sonhos. Não me sinto nada positiva quanto a isso." Sua determinação, no entanto, é de aço: "Se minha família não me forçar a casar, vou esperar. Vou resistir até meu último suspiro."

Numa pequena casa simples no oeste de Cabul, conhecemos Shama (também um pseudônimo). "Se os talibãs não tivessem tomado o poder, eu já teria quase terminado a escola agora. Estaria perto do meu sonho de me tornar médica", diz ela. Em vez disso, há quatro anos, aos 18 anos, foi pressionada pela mãe a se casar. Agora é mãe de um bebê e uma criança pequena - ambas meninas. Sua mãe Kamila, viúva que trabalhava como faxineira para sustentar as filhas na escola, sentiu que não tinha escolha. "Temia que eles [soldados talibãs] questionassem por que não a estava casando", diz Kamila. "Queria que ela fosse educada, trabalhasse e contribuísse para a sociedade. Sou analfabeta, então sou como uma cega. Mas queria que minhas meninas aprendessem. Ela tinha tantos sonhos. Mas não aconteceu para ela."

O impacto da proibição tem sido irreversível. Segundo a ONU, se continuar até 2030, "mais de dois milhões de meninas terão sido privadas de educação além do ensino primário num país que já tem uma das menores taxas de alfabetização feminina do mundo." Shama diz: "Ter um marido não é o único sonho que uma mulher tem. Ela precisa primeiro se sustentar, tornar-se independente e depois pode casar e formar uma família. Mas entrei nessa nova vida sem nada disso. Meus sonhos permanecem não realizados." Ela está constantemente estressada, desencadeada até por filmes mostrando mulheres trabalhando ou estudando. Sua irmã de 18 anos, Nora, agora teme o mesmo destino: "Sou muito jovem para casar. Quero continuar minha educação. É como estar na prisão."

Desde 2021, a resposta do governo talibã sobre quando as escolas reabrirão para meninas tem variado de uma razão para outra.