Será que o Vale do Silício tem construído as coisas erradas? Segundo o escritor/designer/acadêmico Ian Bogost, sim — mas não da forma que você imagina. Em seu próximo livro "The Small Stuff: How to Lead a More Gratifying Life", Bogost argumenta que nossa obsessão por conveniência tem desmaterializado silenciosamente a vida cotidiana, deixando-nos desconectados do mundo sensorial. Usando seu popular artigo na Atlantic sobre o declínio dos carros com câmbio manual como trampolim, Bogost explora como tudo, de carros a portas e banheiros, foi despojado de sua textura física.

"Basicamente, é a ideia de que nos desconectamos do mundo sensorial, e a razão para isso é o que você pode chamar de tecnologias de conveniência", explicou Bogost, embora tenha sido rápido em notar que a tecnologia não é a única culpada. "Todo tipo de fator — não apenas a tecnologia, e certamente não apenas a tecnologia estilo Vale do Silício — distanciou as pessoas do mundo que habitam, removeu a textura da vida cotidiana."

Bogost é refrescantemente não irritado com tudo isso, especialmente comparado a outros críticos de tecnologia. "Só me sinto um pouco entediado com a crítica constante", admitiu. Em vez disso, ele foca em encontrar gratificação em experiências sensoriais mundanas — a sensação de um câmbio manual, o baque de uma porta manual, o jato satisfatório (ou não) de um dispensador de sabão. Ele não está pedindo uma revolução ludita; ele só quer que notemos o que trocamos em nome da eficiência.

Veja o banheiro de aeroporto. O vaso dá descarga para você, a pia liga para você, as toalhas são dispensadas para você — ou não, porque os sensores estão tendo uma crise existencial. "Essa sensação de: 'Isso que eu costumava fazer com meu corpo físico e meus sentidos, agora não faço mais'. Isso é tão comum", disse Bogost. "Não percebemos que estávamos fazendo uma troca entre progresso e abrir mão desse contato com o mundo material."

Bogost toma cuidado para não romantizar o passado. "Nossas vidas são, de modo geral, melhores", reconheceu. "Mas houve algo que aconteceu que não notamos, como um sapo sendo fervido lentamente." Ele distingue sua abordagem de críticos como Cory Doctorow, cujo termo "enshittification" ele considera simplista demais. "É muito satisfatório acreditar que existem mocinhos e bandidos, mas acho que isso aconteceu ao longo de um período tão longo, tão lentamente e com tanto endosso geral."

Quanto ao Vale do Silício especificamente, Bogost vê uma cultura que esqueceu a importância da experiência corporificada. "Você vai ao Vale e ainda há essa estranha sensação de que a experiência humana corporificada não é necessária, é desnecessária. E isso está simplesmente errado." Ele aponta para uma era anterior da computação — os anos 1970 na Xerox PARC e na Apple — quando a engenharia de fatores humanos era central. "A experiência de fazer algo também é importante, não apenas o resultado. Ficamos massivamente focados no resultado e depois despriorizamos a experiência de fazer as coisas."

Então, o que um empreendedor deve fazer? Bogost sugere redescobrir o equilíbrio entre conveniência e atrito. "Quem se importa com a sensação do gelo na minha garrafa de água? Mas com o tempo, todas essas pequenas coisas se acumulam. É profundamente significativo, e quando você tira tudo, realmente sente falta do que está faltando."