Um novo relatório da ONU confirmou o que muitas pessoas sussurrando sobre fórmulas infantis caras já sabem: globalmente, a maioria das pessoas quer dois ou mais filhos, mas muitas estão tendo apenas um, ou nenhum. O mais recente relatório Estado da População Mundial da agência de direitos sexuais e reprodutivos da ONU (UNFPA) revela que cerca de um em cada cinco adultos em todo o mundo acredita que não será capaz de ter o número de filhos que deseja, principalmente devido à insegurança econômica, desigualdade e falta de apoio.
Michael Herrmann, economista e demógrafo da UNFPA, está pedindo a todos para respirar fundo. Falando à margem da reunião da Comissão sobre População e Desenvolvimento na sede da ONU em Nova York, ele alerta que o pânico é injustificado. 'A mudança demográfica não é uma crise em si', diz ele, defendendo em vez disso um conceito que está ganhando atenção: resiliência demográfica. Isso significa ajudar as sociedades a antecipar mudanças populacionais, adaptar suas instituições e fazer melhor uso do potencial humano, uma abordagem aplicável tanto a países em desenvolvimento quanto ricos.
O relatório descreve diferentes fases demográficas. Alguns países experimentam um 'dividendo demográfico' onde uma população em idade ativa crescente impulsiona o crescimento econômico. Outros, mais adiantados, podem se beneficiar de um 'segundo dividendo' investindo em educação, saúde, habilidades e tecnologia para aumentar a produtividade. Um dos efeitos mais visíveis do envelhecimento populacional é uma força de trabalho encolhendo, à qual muitos governos responderam simplesmente aumentando as idades de aposentadoria. Herrmann chama isso de 'um instrumento muito bruto', pois ignora as diferentes capacidades, preferências e circunstâncias de vida dos idosos.
À medida que as taxas de natalidade caem, alguns governos reagem com bônus em dinheiro, incentivos fiscais ou até metas oficiais de fertilidade. As evidências sugerem que essas medidas têm impacto limitado e de curta duração. 'Pagamentos únicos não mudam decisões de longo prazo', diz Herrmann. Na melhor das hipóteses, eles podem influenciar quando as pessoas têm filhos, não se elas os têm. A nova Pesquisa de Escolhas Reprodutivas da Juventude da UNFPA, em andamento em 70 países, adota uma abordagem diferente perguntando diretamente às pessoas por que estão tendo menos filhos do que desejam.
Os primeiros resultados da pesquisa destacam uma mistura potente de pressões econômicas e sociais. Altos custos de moradia e creche, emprego inseguro e preocupações com o futuro - desde instabilidade política até mudanças climáticas - pesam muito. O mesmo ocorre com papéis de gênero desiguais, com as mulheres frequentemente arcando com a maior parte do trabalho de cuidado não remunerado e doméstico. 'Essas não são questões que podem ser resolvidas com um cheque', observa Herrmann, acrescentando que políticas impulsionadas pelo medo do declínio populacional também podem minar direitos, particularmente das mulheres, promovendo suposições prejudiciais.
Uma abordagem baseada em direitos, argumenta Herrmann, começa com uma pergunta diferente: o que impede as pessoas de ter os filhos que desejam? A partir daí, os governos podem identificar soluções práticas como moradia acessível, creche acessível, licença parental para ambos os pais, empregos estáveis e salários iguais. Tais políticas apoiam famílias sem coerção. Embora populações envelhecidas realmente apresentem desafios reais para sistemas de pensão e saúde, elas não significam automaticamente declínio econômico. Gastos com saúde e cuidados de longo prazo também criam empregos, particularmente em serviços enraizados em comunidades locais, e os idosos contribuem de muitas maneiras além do trabalho remunerado.