Em maio de 2006, o estado de São Paulo, no Brasil, decidiu que era uma ideia brilhante transferir quase 800 suspeitos de pertencer a facções criminosas para presídios de segurança máxima. O grupo criminoso local, o PCC, respondeu com uma onda de rebeliões em presídios e ataques contra as forças de segurança, matando 59 policiais e agentes penitenciários. Nos nove dias seguintes, a polícia retaliou matando mais de 500 pessoas — oficialmente descritas como tiroteios com "criminosos", mas grupos de direitos humanos e estudos forenses afirmam que foram, em grande parte, execuções, inclusive de pessoas inocentes.

Vinte anos depois, a grande maioria desses assassinatos permanece sem solução, e os parentes das vítimas ainda exigem respostas do Estado brasileiro. O Superior Tribunal de Justiça do país deve decidir em breve sobre a indenização há muito reivindicada para as vítimas. "Não há dinheiro que pague a vida de um filho", disse Débora Maria da Silva, fundadora do Movimento Mães de Maio, que reúne parentes das vítimas.

Da Silva soube da morte de seu filho mais velho, Edson, de 29 anos, quando um locutor de rádio leu uma lista dos mortos em "confrontos com a polícia". Ela passou anos procurando uma testemunha e mandou exumar e enterrar o corpo novamente em 2012. Descobriu que Edson, um gari, foi abordado por oito policiais em um posto de gasolina. "Quando ele disse que era trabalhador e não tinha feito nada de errado, eles o espancaram", disse ela. Ele levou cinco tiros e morreu. Após batalhas judiciais, o Estado foi condenado a pagar a ela £72.000 (US$97.000) em indenização e uma pensão equivalente a um terço do salário mínimo mensal (£80). O juiz decidiu que a polícia respondeu aos ataques do PCC de forma "violenta, desarrazoada e indiscriminada e, portanto, ilegal". Mas nenhum dos policiais envolvidos foi identificado.

"Os crimes de maio de 2006 foram um dos capítulos mais graves da história do Brasil", disse o advogado Gabriel Sampaio, diretor da ONG Conectas. Até mesmo assassinatos de agentes públicos tiveram pouca resolução — uma reportagem recente da Folha de S. Paulo identificou apenas 15 condenações, como a do líder do PCC Marcos Willians Herbas Camacho (conhecido como Marcola), condenado a 50 anos por ordenar a execução de um bombeiro. Apenas um policial foi condenado: um cabo considerado culpado de homicídio por abrir fogo contra três jovens que conversavam em uma rua.

Laudos periciais de 124 corpos — todos registrados como supostos "tiroteios" — constataram que a maioria dos tiros atingiu áreas altamente letais, disparados a curta distância e de cima. O perito concluiu que isso "aponta para um cenário mais consistente com execução do que com tiroteio". Apenas 6% das vítimas tinham antecedentes criminais; a maioria era de jovens negros de bairros pobres. A polícia de São Paulo não respondeu a pedidos de comentário, mas mantém que todas as mortes foram investigadas "de forma regular e rigorosa".

Enquanto isso, o PCC cresceu da maior facção criminosa de São Paulo para uma das maiores da América Latina, expandindo as exportações de cocaína para mais de 20 países. "A resposta do Estado foi tão equivocada que não produziu nenhum freio à organização", disse Sampaio. Em 2018, um promotor público entrou com uma ação pedindo indenização para as famílias das vítimas e 110 sobreviventes feridos; o tribunal estadual rejeitou, e o caso aguarda retomada no Superior Tribunal de Justiça em 10 de junho.

"É preciso um pedido de desculpas", disse Débora, cujo movimento faz referência às Mães da Praça de Maio, da Argentina. "O Estado brasileiro continua produzindo 'mães de maio' e não podemos dizer que há democracia aqui enquanto negros e pobres continuarem sendo perseguidos e mortos pela polícia."