Shaun Hancox, um homem que ganhou a duvidosa honra de ser chamado de "o Picasso dos lagos", está atualmente transformando um campo pantanoso em Somerset em algo que parece mais um canteiro de obras do que uma obra-prima. Sua escavadeira laranja e preta cava ritmicamente o solo argiloso e irregular, esculpindo-o em margens marrons que se assemelham a uma cicatriz no pasto verde. Mas não tema - a mágica acontece quando a chuva enche essas depressões, e a vida explode mais rápido que uma promessa de político.
A Grã-Bretanha perdeu pelo menos 400.000 lagos no último século, de acordo com a Freshwater Habitats Trust, deixando os restantes cobertos de vegetação, degradados ou poluídos por nutrientes. "Todo mundo percebe que estamos em um estado lastimável com a água doce", diz Hancox, da Creative Wetlands, que cavou dezenas de novos lagos para instituições de caridade e projetos de rewilding em toda a Grã-Bretanha. Seu trabalho anterior? Modelar campos de golfe, aterros sanitários e sistemas de drenagem - basicamente tudo que não era bom para a vida selvagem. "Sempre tive um enorme interesse pela vida selvagem, então chegamos ao ponto em que queremos devolver algo", explica, como se estivesse se desculpando por sua vida passada como modelador de campos de golfe em Portugal, Alemanha e Bélgica.
Construir campos de golfe ensinou a Hancox a arte da criação de lagos. "Uma bola de golfe rola muito como a água se move", diz ele, revelando uma percepção surpreendentemente profunda. Agora ele aplica essa lógica a lagos de vida selvagem, esculpindo-os como bunkers, mas de uma forma mais rústica e natural. No Heal Somerset, uma antiga fazenda leiteira de 185 hectares (460 acres) que está sendo rewildada pela instituição de caridade Heal Rewilding, Hancox está cavando quatro novos lagos, incluindo um de dupla bacia com 30 metros de diâmetro, especificamente para tritões-de-crista-grande. Esses tritões foram encontrados em baixo número na fazenda, mas não tinham lagos adequados para se reproduzir - até agora.
Crucialmente, esses lagos não estão conectados a nenhum sistema fluvial, que poderia levar água rica em nutrientes ou poluída para dentro deles. Em vez disso, eles dependem de água da chuva limpa ou água subterrânea, permitindo que plantas aquáticas delicadas prosperem. Pete Case, da Newt Conservation Partnership, observa: "Você pode mexer em rios o quanto quiser, mas a criação de lagos é a maneira mais simples e barata de trazer água limpa de volta à paisagem." A parceria, financiada pela NatureSpace partnership, onde construtores pagam para criar habitat de substituição, garante que cada lago seja mantido por 25 anos com inspeções anuais e pagamentos aos proprietários.
A técnica de Hancox é tão intrincada quanto uma boneca russa: um lago dentro de um lago dentro de um lago. Esse design garante que, à medida que a água seca no verão, a vida aquática possa recuar para a parte mais profunda, evitando poças isoladas onde pereceria. Ele usa um nível a laser para precisão, mas também emprega varas de radiestesia - hastes de metal mantidas esticadas que supostamente apontam para dentro quando água subterrânea é detectada - para localizar e bloquear drenos de campo antigos. Jan Stannard, CEO da Heal Rewilding, chama seus lagos de "o equivalente massivo de um fuçar de porco", observando que nem mesmo seus porcos Tamworth conseguem igualar sua escala.
Lagos e zonas úmidas estão inspirando voluntários no Heal, com Stannard chamando-os de "um portal para as pessoas entrarem na restauração de habitat". Hancox, refletindo sobre sua mudança de carreira de campos de golfe para refúgios de vida selvagem, diz: "É tão gratificante, especialmente voltar e ver como tudo está funcionando - as libélulas, os sapos, a vida das aves, narcejas - tudo vem tão rápido. Você não poderia ter um emprego melhor."