Todo inverno, uma fatia da costa sul da Austrália se torna o ponto mais quente do mundo para o romance das lulas-gigantes. Centenas de milhares desses cefalópodes que mudam de forma e cor aparecem para uma frenesi de acasalamento tão épica que atrai mergulhadores de todo o globo. Mas este ano, a festa foi um fracasso: números oficiais divulgados este mês estimam que apenas 1.811 lulas apareceram para acasalar, contra 63.000 no ano passado - uma queda de 97% que gerou temores de um 'declínio catastrófico'.

O governo estadual aponta o dedo para uma floração de algas tóxicas que vem devastando a costa há mais de 18 meses. A floração, causada pelo aquecimento dos oceanos, ondas de calor marinhas e poluição por nutrientes - tudo agravado pelas mudanças climáticas - tem sido particularmente dura para lulas, polvos e chocos. E os números são sombrios: apenas 440 ovos foram contados nesta temporada, em vez dos milhões geralmente depositados.

Manny Katz, 28, foi um dos quatro mergulhadores encarregados pelo Departamento de Meio Ambiente e Água da Austrália do Sul de avaliar os danos. Em dois dias de julho, sua equipe fez oito mergulhos de uma hora, vasculhando sob rochas ao longo de oito quilômetros de costa. 'Normalmente haveria milhões de ovos', disse ele. Em vez disso, encontraram cerca de 440. As lulas adultas vivem apenas de 12 a 18 meses, então o sucesso desta temporada de reprodução determina a população do próximo ano. 'Não sabemos se a população algum dia será capaz de se recuperar', lamentou Katz.

Os poucos adultos que viram estavam agindo de forma arisca, escondendo-se sob rochas - sem força nos números. Katz não ficou chocado, dado o estrago da floração de algas desde março do ano passado. 'Este é o canário na mina de carvão', disse ele. Stefan Andrews, cofundador da Fundação Great Southern Reef, está pressionando para listar a lula-gigante australiana como ameaçada, observando que a floração é uma 'explicação plausível principal', mas não definitivamente comprovada.

Um porta-voz do Departamento de Indústrias Primárias e Regiões da Austrália do Sul observou que as populações de lulas 'flutuam naturalmente' - de um recorde baixo de 13.500 em 2013 a um pico de 247.000 em 2020. O Prof. Mike Steer do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento da Austrália do Sul chamou a estimativa baixa de 'desanimadora', mas permaneceu esperançoso, já que a população se recuperou para mais de 100.000 dentro de dois anos após o declínio de 2013. Ele apontou 'sinais positivos' de postura contínua de ovos.

Então, as lulas vão se recuperar? Só o tempo - e muito menos algas tóxicas - dirão. Mas por enquanto, a Costa das Lulas está bem menos movimentada, e bem mais preocupante.