Em Death Has No Master, Asia Argento interpreta Caro, uma mulher ítalo-venezuelana ansiosa em uma missão apressada para recuperar uma propriedade herdada dos zeladores locais que ainda moram lá. A premissa pertence a um thriller psicológico surrealista do cineasta venezuelano-canadense Jorge Thielen Armand, que desvenda a história pessoal junto com tensões profundamente enraizadas e "eternas" que ainda assolam a Venezuela hoje.
"O filme tem múltiplas camadas de significado", diz Armand antes de sua estreia na seção Quinzena dos Realizadores em Cannes. "Eventos recentes só tornam essas multiplicidades maiores." Esses eventos incluem a incursão dos EUA na Venezuela, que começou com Trump enviando navios de guerra em agosto passado, supostamente para combater o tráfico de drogas - exatamente quando a produção de Death Has No Master começou. Em janeiro, os EUA prenderam o presidente autoritário Nicolás Maduro, cujo governo foi acusado de corrupção política e violações de direitos humanos, enquanto assumiam o controle do país e de sua indústria petrolífera, que muitos acreditam ser a verdadeira agenda desde o início. "É muito preocupante, o que está acontecendo", diz Armand em uma videochamada com Argento. "Acho que o filme pode falar sobre a escuridão coletiva que os venezuelanos sentem, e a traição dos sistemas domésticos e internacionais."
Death Has No Master é o retorno de Armand ao terreno que explorou quase uma década atrás em seu primeiro longa-metragem La Soledad, um retrato de luta e desespero durante o colapso econômico da Venezuela. Aquele filme, que borra documentário e ficção, foi filmado na mansão deteriorada que sua família possuía, onde um ocupante, José, vivia com sua esposa, filha e avó - uma ex-empregada da família de Armand antes de abandonarem a propriedade. La Soledad acompanha o drama de José quando a propriedade ocupada está prestes a ser demolida e vendida. Agora Armand inverte a perspectiva para os proprietários, inspirado em parte por um sonho recorrente de vagar por um prédio escuro e abandonado onde pessoas festejam e usam drogas enquanto ele busca algo incerto. "Quando acordo, penso em casa e em tudo que deixei para trás", diz ele. "Então o filme é esse pesadelo de voltar, descobrir que as pessoas e coisas que você deixou para trás não estão mais lá; como se a versão de si mesmo deixada para trás estivesse apodrecendo de dentro para fora."
Desde seus primeiros quadros, Death Has No Master está suspenso em um estado onírico, premonitório, abstrato, onde o tempo parece colapsado. O passado colonial ocupa o presente. Grãos de cacau são tão ameaçadores como símbolo de riqueza e violência histórica quanto a refinaria de petróleo trovejando ao longe. Nesse cenário entra Caro de Argento, em um estado algo sonâmbulo ela mesma - uma ítalo-venezuelana se retirando de sua vida no exterior por razões não ditas, retornando à plantação que herdou de seu pai. Ela se move desajeitadamente por espaços antiquados, tomada pelo medo porque o ambiente guarda traumas pessoais e históricos, mas alimentada por um senso de direito legalmente vinculante. Ela alterna entre se encolher e pairar sobre Sonia (Dogreika Tovar), a zeladora afro-venezuelana que reivindica seu próprio direito com seu filho pequeno.
"Eu me levei praticamente à loucura", diz Argento sobre sua imersão no ambiente, que envolveu viver em isolamento nos locais de filmagem. "E eu senti muito medo; algo primal; algo indizível que acho que minha personagem sentiu ao voltar para lá. Não tenho realmente uma maneira de intelectualizar, de verbalizar. Muito teve a ver com meu inconsciente, e minha própria história, de uma forma que se tornou paralela à de Caro, minha personagem." Argento explica que o falecido pai de Caro - uma figura abusiva que assombra suas memórias - "tem aspectos" de seus próprios pais famosos: o mestre do horror italiano Dario Argento e a atriz-roteirista Daria Nicolodi, a dupla por trás do clássico giallo Suspiria. Ela não especifica as maneiras como o pai de Caro ressoa, mas descreve ter sido tocada pelo filme de Armand porque as emoções coincidem com as suas. "Está lidando com meus próprios pesadelos, e minha própria infância, um"