O Conjunto Residencial Belo Horizonte, torres gêmeas de apartamentos no estado venezuelano de La Guaira, tinha 16 andares e oferecia vistas panorâmicas do Mar do Caribe. Erick Rosas, a poucas semanas de se formar na faculdade, morava com a família no terceiro andar, mas quando o tremor começou na quarta-feira, ele estava visitando o tio, cerca de 24 quilômetros adiante na costa. Era feriado nacional, em comemoração a uma batalha do século XIX que levou à independência da Venezuela, e Rosas estava na piscina.

Naqueles primeiros momentos aterrorizantes de terremotos consecutivos, mais fortes do que qualquer um que o país havia experimentado em mais de um século, Rosas só conseguia pensar em escapar, ele me disse. Ele se puxou da água e saltou do deque da piscina sobre um muro de concreto que caía cerca de 3 metros até a rua. Prédios atrás dele, e à sua esquerda e direita, estavam desabando. Sem camisa, de chinelos, ele partiu para encontrar sua família. Para chegar ao Belo Horizonte, ele andou e pegou caronas na traseira de motos através de poeira e fumaça, em meio ao clamor e confusão dos presos e feridos, passando por escombros e destroços em chamas de ruas outrora familiares. Levou cinco horas para chegar em casa, apenas para descobrir que grande parte da torre havia desabado em efeito panqueca.

Perto do final da primeira semana de um dos piores desastres naturais da América Latina em anos, pelo menos 1.700 pessoas foram confirmadas mortas, cerca de 5.000 estão feridas e mais estão desaparecidas. O número de mortos certamente aumentará. O estado mais atingido, La Guaira, está repleto de equipes de busca e resgate e ajuda humanitária de dezenas de países, incluindo os Estados Unidos. A ONU está coordenando mais de 2.000 socorristas a partir de um centro de comando em um estádio. Forças militares americanas ajudaram a reabrir o aeroporto internacional próximo que atende Caracas. E um navio de guerra da Marinha, o USS Fort Lauderdale, está atracado na costa.

Mas grande parte dessa ajuda chegou muito depois do período mais crucial, quando os moradores do Belo Horizonte e das centenas de outros edifícios destruídos estavam urgentemente tentando resgatar sobreviventes em estado crítico. Naqueles primeiros dias, as pessoas mais próximas do desastre sentiram agudamente a ausência de qualquer assistência de seu próprio governo. "Eramos só nós, os parentes, os vizinhos", disse-me Zuleica Perez, uma moradora de Caracas de 66 anos que procurou sua família nos escombros do Belo Horizonte.

Ao longo da costa venezuelana, e especialmente em La Guaira, a noite dos terremotos estava preparada para ser festiva. A área estava sediando a festa de San Juan, uma importante celebração afro-venezuelana, durante a qual a imagem de São João é colocada em um altar público. As pessoas cantam e dançam; tambores enchem as ruas. O sobrinho de Perez, Christopher Pineda, estava trabalhando em um clube de praia próximo. A esposa de Pineda, Maria Eugenia Garcia de Pineda, professora de matemática e física do ensino médio, estava em casa com os dois filhos no apartamento de cobertura no 14º andar da Torre A do Belo Horizonte. A partida da Copa do Mundo entre Brasil e Escócia estava começando, e eles estavam assistindo ao jogo.

Quando o tremor cessou, Perez não conseguiu contatar o sobrinho, nem a esposa dele, por telefone. Ela dirigiu de Caracas até a costa para descobrir o que havia acontecido. Centenas de prédios desabaram naquela noite; vídeos da praia mostram um prédio próximo caindo enquanto as pessoas gritam e lamentam. Mas a Torre A não caiu reta; desmoronou em partes e caiu para o lado. Alguns andares inferiores resistiram. Quando Perez chegou, estava escuro e a energia havia acabado. Os escombros se erguiam sobre ela numa pilha de concreto quebrado e metal retorcido. Ela não encontrou sinal de Maria ou de seus filhos.

Rosas chegou às torres caídas tarde daquela noite também, após sua fuga da piscina. Sua mãe, ele me disse, escolheu aquela torre de apartamentos em grande parte porque a considerava segura. Sua casa anterior havia sido arrastada pelas enchentes em La Guaira em 1999, nas quais milhares