A agência espacial brasileira informou recentemente que o desmatamento na Amazônia brasileira atingiu seu ponto mais baixo em uma década, gerando manchetes e um tapinha nas costas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que prometeu eliminar o desmatamento ilegal até 2030. Desde que assumiu o cargo em 2023, o governo Lula reforçou as políticas ambientais, incluindo maior policiamento e monitoramento remoto de terras florestais, para tornar a indústria pecuária do país mais transparente.

Mas antes de você soltar os fogos de artifício, especialistas ambientais alertam que parte desse progresso pode ser desfeito mais rápido do que você consegue dizer "soja". Em janeiro, vários grupos agroalimentares abandonaram a Moratória da Soja na Amazônia, um acordo comercial voluntário que era notavelmente eficaz em conter o desmatamento para o cultivo de soja. O pacto proibia os membros de comprar soja cultivada em terras desmatadas após julho de 2008. Agora que a moratória desmoronou, pesquisadores fizeram as contas e, em um novo artigo publicado na Science, preveem que a Amazônia pode perder 1,4 milhão de hectares - aproximadamente 2 milhões de campos de futebol - para o desmatamento nos próximos 10 anos.

Antes da moratória, a soja era um dos principais motores do desmatamento. No Mato Grosso, maior estado produtor de soja do Brasil, um quarto da produção de soja de 2001 a 2005 veio do desmatamento. Após uma campanha do Greenpeace, os setores público e privado criaram a moratória, e "as pessoas geralmente a seguiram", disse Lisa Rausch, coautora do artigo da Science. "Terras desmatadas após 2008 não eram mais valiosas para os comerciantes de soja."

Ane Alencar, diretora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), chamou a moratória de "um mecanismo de política privada muito importante". Sem ela, ela alerta que terras desmatadas após 2008 - atualmente usadas para gado - serão convertidas para soja, e a pecuária se mudará para novas fronteiras, provavelmente causando mais desmatamento.

O momento também é péssimo: compromissos privados de grandes grupos alimentícios para limpar as cadeias de suprimentos estão vacilando. Este mês, a JBS, maior produtora de carne do mundo, recuou silenciosamente de sua promessa de atingir desmatamento zero líquido até 2040. No ano passado, o diretor de sustentabilidade da empresa admitiu que o compromisso era "puramente aspiracional". Alencar acredita que o setor privado ainda tem um papel, observando que empresas como a JBS são "muito reativas à opinião pública", então talvez mais campanhas sejam necessárias para envergonhá-las a agir com responsabilidade.

Em outro lugar, a Colômbia aprovou uma lei inédita para aumentar a rastreabilidade em sua indústria pecuária, exigindo que agências governamentais trabalhem com pecuaristas e participantes da cadeia de suprimentos para garantir nenhum desmatamento ilegal. Rausch chamou de um sinal forte, mas observou que ainda há muito a ser visto.

O Brasil também tem seu Código Florestal, que limita o desmatamento para agricultura e impõe multas e embargos em terras desmatadas ilegalmente. No entanto, o artigo de Rausch descobriu que 20% das fazendas de soja na Amazônia têm embargos por desmatamento ilegal. "Os incentivos econômicos para o desmatamento ainda estão lá", disse ela. A menos que novas medidas sejam introduzidas, "esta será uma queda temporária, e vai subir de novo com certeza".

Alencar acha o futuro "preocupante", especialmente com Lula concorrendo à reeleição contra Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ela teme que todo o progresso possa estar em perigo se o governo se tornar mais antiambiental.