A bióloga vegetal Beronda Montgomery sentou-se para escrever o que achava que seria uma memória pessoal direta com um toque de história botânica. Então, sua pesquisa de laboratório de doutorado a arrastou, chutando e gritando, para o mundo das ciências sociais, porque aparentemente as plantas estão guardando recibos da história humana o tempo todo.

Montgomery, autora de "When Trees Testify: Science, Wisdom, History, and America's Black Botanical Legacy", é botânica e estuda como as plantas respondem à luz. Mas quando visitou uma antiga plantação e viu uma árvore estimada em 600 anos, percebeu que aquela árvore estava ali enquanto pessoas eram escravizadas naquela terra. E como é cientista, começou a pensar sobre fotossíntese — o processo onde dióxido de carbono e água se transformam em madeira — e percebeu algo profundo: a respiração dos ancestrais estava literalmente capturada naquela árvore.

"A respiração deles foi capturada na árvore, e agora estamos ali com a mesma árvore", explicou Montgomery ao apresentador do Living on Earth, Steve Curwood. "Nossa respiração teve a chance de ser capturada junto em uma espécie de arquivo de carbono registrado." Então, basicamente, as árvores são os discos rígidos originais, armazenando séculos de expirações humanas em seus anéis.

Montgomery recorre à epigenética — como circunstâncias ambientais afetam a expressão genética — para sugerir que as árvores podem carregar marcadores físicos de seu passado traumático. "Se havia uma árvore que era uma árvore de enforcamento, que ela lembra o peso daqueles corpos", disse ela, observando que na horticultura, dobrar um galho pode mudar como ele cresce. "Achamos que está fora do reino da possibilidade que uma árvore de enforcamento se lembre de seu fruto estranho porque não tivemos cientistas que pensassem sobre esses paralelos."

O livro também destaca como africanos escravizados trouxeram conhecimento agrícola sofisticado para a América que construiu indústrias inteiras. O cultivo de arroz prosperou porque mulheres da África Ocidental sabiam como plantá-lo e irrigá-lo — tão bem que os escravizadores pagavam tanto por essas mulheres quanto por homens jovens. Toda a indústria comercial de noz-pecã remonta a um homem escravizado chamado Antoine, que enxertou com sucesso a variedade Centenária. "Há muitas áreas na agricultura — arroz, noz-pecã, tabaco — onde podemos apontar para os avanços que levaram a indústrias comerciais fundadas no conhecimento de pessoas escravizadas", disse Montgomery.

E Harriet Tubman? Ela era basicamente uma sussurradora de árvores. Tubman aprendeu com seu pai que os sicômoros eram o GPS da natureza — sua casca descascada característica brilha ao luar, crescem perto da água (útil para perder cães farejadores) e seus troncos ocos são excelentes esconderijos. Após a emancipação, Tubman plantou centenas de árvores frutíferas em sua propriedade em Nova York e oferecia maçãs aos visitantes como "um sinal de liberdade que ela agora podia fazer isso".

Montgomery espera que os leitores comecem a prestar atenção nas árvores ao redor — e talvez pensar sobre de quem é a respiração que pode estar armazenada nelas. "Para mim, essa ideia de que minha respiração é capturada pela árvore me fez pensar sobre o que significa viver uma vida digna disso", disse ela. Sem pressão, mas seu carvalho local está literalmente mantendo uma cópia carbono da sua existência.