Em dezembro de 2024, Amos Guiora, professor da Faculdade de Direito S.J. Quinney da Universidade de Utah, recebeu um e-mail que o fez piscar duas vezes. O assunto era o nome de seu avô, assassinado em Auschwitz em maio de 1944. Seu primeiro pensamento: Spam. Mas após responder afirmativamente a três perguntas de identificação, ele soube que quatro volumes do Talmude que seu avô levara para Auschwitz foram descobertos na biblioteca particular de Julius Streicher, editor do jornal nazista Der Stürmer. Streicher, enforcado após os julgamentos de Nuremberg, acumulara 10.000 livros, incluindo estes.

Guiora, cujo foco acadêmico são os espectadores e cúmplices — inicialmente no Holocausto, depois em casos de agressão sexual e abuso infantil — agora volta sua atenção para como os cúmplices facilitaram atrocidades. Seu próximo livro, "Cúmplices: Normalizando o Inimaginável" (previsto para agosto), examina os cúmplices do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que, segundo ele, são responsáveis por destruir o estado de direito e se recusar a negociar a libertação de reféns com o Hamas. Outro livro, "Vitória, Redenção e Responsabilidade Legal: Ao Assistir, Permitimos" (previsto para 2028), argumenta que os cúmplices, não apenas os perpetradores, devem ser responsabilizados legalmente por crimes como o Holocausto, agressão sexual e tomada de reféns.

Este projeto mais recente é parte história de detetive, parte acerto de contas pessoal. Guiora rastreará a jornada daqueles quatro volumes da casa de seu avô em Nyíregyháza, Hungria, para Auschwitz, depois para a biblioteca de Streicher em Nuremberg, e finalmente para ele. Ele planeja viajar para Auschwitz pela primeira vez, bem como para o leste da Hungria e Alemanha, para entender não apenas como seus avós foram assassinados, mas como os livros foram parar nas mãos de um propagandista nazista.

O livro entrelaça três perguntas desconfortáveis: Os espectadores entenderam o que estava acontecendo com seus vizinhos judeus em tempo real? Qual o papel que desempenharam na destruição dos judeus europeus? E quão culpáveis são? Guiora está especialmente interessado no papel dos rabinos que insistiram que seus congregantes não deixassem a Hungria para o que hoje é Israel até que o Messias chegasse — uma decisão que, em sua opinião, permitiu a tragédia. Seu próprio bisavô, membro da seita hassídica Satmar, proibiu sua avó e avô de deixarem a Hungria em 1939. Eles foram deportados e assassinados.

Guiora insiste que isso não é apenas sobre moralidade. Ele quer responsabilidade legal para os cúmplices, argumentando que sem um ecossistema de cumplicidade, os perpetradores não podem agir impunemente. "Assistir, o pecado da omissão, só garante que a história se repetirá", escreve ele. Enquanto a negação do Holocausto, a minimização e o antissemitismo moderno aumentam, ele vê esses livros como um chamado à ação — e uma chance de redenção, se os leitores prestarem atenção.