Em uma medida que ativistas chamam de marco - e que a maioria das pessoas razoáveis chamaria de 'finalmente' - a Colômbia se tornou na semana passada o primeiro país da América Latina a proibir a mutilação genital feminina (MGF). O projeto de lei foi aprovado por unanimidade no Congresso colombiano, coroando uma longa batalha para erradicar uma prática tão perigosa quanto secreta.

Veja a história de Carla Quiñonez. Sua filha tinha apenas seis meses quando a bisavó da bebê a submeteu à MGF pelas costas de Quiñonez. Quando a avó devolveu a criança, ela estava com febre, inchada e sangrando, e chorava constantemente. Quiñonez confrontou a avó, que descartou como normal e a fez jurar segredo. O centro de saúde mais próximo ficava a uma longa viagem, então a mãe de Quiñonez, uma parteira, tentou aliviar a dor da bebê com plantas medicinais. A justificativa da avó? 'Os homens zombam das mulheres que têm clitóris.' Ah, sim, a velha defesa da vergonha do clitóris.

MGF, para os não iniciados, envolve a remoção parcial ou total da genitália externa feminina por razões não médicas. Pode causar hemorragias, infecções, complicações com menstruação e parto, e - surpreendentemente - dificultar que as mulheres sintam prazer sexual. A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 230 milhões de meninas e mulheres vivas hoje foram cortadas, predominantemente na África.

Quiñonez, 30, tem feito campanha para erradicar a prática na Colômbia, onde ainda é praticada por membros de sua comunidade indígena Emberá. Junto com outros ativistas e membros do Congresso, ela desempenhou um papel fundamental na campanha que levou à proibição. Ao crescer, ela notou algo estranho: 'Sempre me perguntei por que mais meninas do que meninos pareciam morrer logo após o nascimento.' Uma prima jovem, nascida saudável, morreu três dias depois - sua mãe culpou 'jai', uma doença ancestral. Quiñonez agora suspeita que essas meninas realmente morreram de complicações da MGF.

Entre 2020 e junho de 2026, 240 casos de MGF foram registrados na Colômbia, principalmente em meninas com menos de seis anos. Mas a pediatra Diana Ramos Mosquera chama isso de 'a ponta do iceberg'. No Hospital Universitário San Jorge, em Pereira, ela viu cicatrizes, queimaduras e mutilações em meninas examinadas por outras condições. Uma menina chegou com a abertura vaginal selada, exigindo cirurgia reconstrutiva. A Dra. Ramos vê a MGF como violência sexual e de gênero com consequências ao longo da vida, mas enfatiza que a educação, não apenas a punição, é fundamental: 'Alguns membros dessas comunidades realmente acreditam que não estão fazendo mal algum.'

Com cerca de 300.000 membros, a Grande Nação Emberá é uma das maiores comunidades indígenas da Colômbia, também abrangendo Equador e Panamá. Por que eles praticam MGF quando é raro em outros lugares da América Latina? As teorias variam desde a prática ter chegado com africanos escravizados (explicando sua prevalência em Risaralda, Chocó e Valle del Cauca, áreas com grandes populações afro-colombianas) até um medo antigo de que o clitóris cresça e vire um pênis se não for cortado, até a crença patriarcal de que uma mulher com órgão de prazer pode se tornar promíscua. Porque, claro.

Juliana Domico, representante legal e principal conselheira indígena da Confederação Nacional dos Povos da Grande Nação Emberá, rejeita a defesa cultural: 'Nossa cultura é nossa roupa, nosso artesanato, nossas danças e nossa língua, não uma prática que mata. A cultura não mata.' Ela espera que a lei se traduza em políticas públicas com recursos suficientes.

Quiñonez enfrentou ameaças por sua defesa, especialmente de homens. Tradicionalmente, os homens não deveriam saber sobre o ritual, mas conversas sobre abolição muitas vezes acontecem apenas com líderes homens porque muitas mulheres Emberá falam apenas a língua indígena e não o espanhol. Isso também impede que as mulheres procurem ajuda médica. Quando Quiñonez levou sua filha ao hospital por febre devido a uma infecção do trato urinário, uma enfermeira a repreendeu por 'ser selvagem' e ameaçou levar a bebê embora. Sem surpresa, ela agora evita hospitais.