Ushuaia, a cidade mais ao sul da Argentina, sempre se deleitou com o brilho romântico de ser chamada de 'O Fim do Mundo' - uma porta de entrada para a Antártida e a beleza dramática da Patagônia. Mas ultimamente, ela tem lidado com um apelido menos lisonjeiro: 'Zona Zero para Aquele Surto de Hantavírus no Navio de Cruzeiro Holandês MV Hondius.'

O navio de cruzeiro, agora ancorado em Tenerife, nas Ilhas Canárias da Espanha, começou sua jornada em 1º de abril em Ushuaia, a mais de 9.600 km de distância. A bordo estavam 114 passageiros e 61 tripulantes de 22 países. Acredita-se que o vírus tenha embarcado lá, mas a origem exata - e quem o carregou - permanece um mistério, alimentando especulações intensas em partes da mídia.

Uma teoria sugere que um passageiro pode ter sido infectado em um aterro sanitário nos arredores de Ushuaia, onde turistas observam pássaros e o lixo atrai ratos. Autoridades argentinas, falando anonimamente, lançaram essa como sua principal hipótese. Localmente, essa sugestão foi recebida tão bem quanto um pinguim no deserto.

"Na Terra do Fogo, não temos registro de casos de hantavírus em nossa história", disse Juan Facundo Petrina, Diretor Geral de Epidemiologia e Saúde Ambiental da província. "Desde 1996 - quando o Sistema Nacional de Vigilância o incluiu entre as doenças de notificação obrigatória - não tivemos um único caso." Petrina, que assumiu o cargo em 2021 durante a pandemia, repetiu isso em todas as entrevistas coletivas e entrevistas, enfatizando que a zona endêmica fica a mais de 1.500 km ao norte. "Não temos a subespécie do rato de cauda longa [que transmite a doença], nem as mesmas condições climáticas", acrescentou. "E se os roedores começassem a se mover, eles teriam que cruzar o Estreito de Magalhães - uma dificuldade adicional, além do clima."

Embora muitos especialistas concordem que a infecção provavelmente não ocorreu na Terra do Fogo, o governo nacional argentino enviou uma equipe de especialistas para verificar vestígios de hantavírus ou do rato de cauda longa. A equipe capturará ratos no aterro e os testará. Mas dois dias após o anúncio, os especialistas ainda não chegaram. Quando a BBC visitou, pássaros circulavam sobre as pilhas de lixo e não havia sinal de uma investigação ativa.

O epidemiologista Eduardo López, chefe do Departamento de Medicina e Doenças Infecciosas do Hospital Infantil Ricardo Gutiérrez, em Buenos Aires, disse que mais estudos são necessários porque os ecossistemas estão mudando. "Por exemplo, o rato pigmeu de cauda longa, cujo habitat original eram os Andes patagônicos e o noroeste da Argentina, agora pode ser encontrado na província de Buenos Aires junto com outros roedores que transmitem a doença."

A urgência não é apenas científica - é econômica. A Terra do Fogo é a província mais jovem e menos populosa da Argentina, com o turismo como fonte chave de renda. Juan Manuel Pavlov, do Instituto Fueguino de Turismo, observou que mais de 95% dos barcos para a Antártida partem do porto. "Com mais de 500 escalas por ano, a indústria de cruzeiros é fundamental." Até agora, apesar de um aumento nas consultas, não houve cancelamentos oficiais de cruzeiros, mas qualquer impacto de longo prazo pode levar meses para aparecer.

No porto de Ushuaia, a vida continua normalmente. Turistas passeiam e se reúnem para excursões mais curtas. "A ausência de casos aqui é muito reconfortante", disse Adonis Carvajal, operador turístico. "As pessoas perguntam se há infecções, e o fato de não haver relatos de pessoas doentes aqui traz calma." Entre os visitantes, David Bomparp, da Venezuela, chegou com sua parceira, Daniela Sandoval, há apenas alguns dias. "Pelo que entendemos, nada foi confirmado aqui, então viemos sem nos preocupar", disse ele. Daniela acrescentou que sua mãe estava menos relaxada: "Ela estava me enviando reels do Instagram e links a noite toda."

As autoridades de saúde ainda estão tentando descobrir onde a infecção se originou. Eles acreditam que um dos casais holandeses que contraiu o vírus e morreu é provavelmente o 'paciente zero'. Autoridades tentaram reconstruir sua jornada pela Argentina, Chile e Uruguai.