Com os republicanos encarando ventos políticos cada vez mais desfavoráveis antes das eleições de meio de mandato em novembro, Donald Trump encontrou uma nova estratégia: transformar a agitação na França em uma história de advertência para os eleitores americanos. Porque nada diz "América Primeiro" como uma apresentação de PowerPoint sobre Paris.

Em um comício no Kansas na noite de segunda-feira, Trump descreveu a França como uma nação outrora grandiosa que foi "conquistada, saqueada e reduzida a cinzas por migrantes, jihadistas e comunistas". "Se você quer ver o que está em jogo nesta eleição, basta olhar para o que está acontecendo na França", disse ele, presumivelmente gesticulando em direção a um continente a cerca de 6.400 quilômetros de distância.

O contexto real: os protestos em toda a França no sábado foram convocados por causa do aumento dos preços dos combustíveis e da queda do poder de compra. Em várias cidades, eles eclodiram em saques e confrontos com a polícia que deixaram uma prefeitura histórica incendiada e resultaram em 1.800 prisões. Na segunda-feira, toques de recolher noturnos foram emitidos para várias cidades francesas, incluindo partes de Paris. Então, sim, as coisas estão ruins — mas talvez não no sentido "migrantes e comunistas" que Trump está vendendo.

"Isso é o que está acontecendo na França — eles querem que aconteça com o nosso país. Nunca vai acontecer aqui", declarou Trump, arrancando aplausos estrondosos da multidão de milhares de pessoas no vermelho-rubi do Kansas, onde o senador republicano Roger Marshall enfrenta um desafio surpreendentemente difícil do democrata Adam Hamilton. Nada anima uma multidão como a ameaça de um caos hipotético ao estilo francês.

Mais cedo naquele dia, Trump repetiu sua alegação infundada de que migrantes haviam "tomado" a França, escrevendo no Truth Social que os líderes do país devem "FECHAR AS FRONTEIRAS, RÁPIDO!" Porque nada diz análise geopolítica nuançada como postagens em maiúsculas nas redes sociais.

A retórica ecoa o Reagrupamento Nacional, de extrema-direita da França, cujo presidente, Jordan Bardella, descreveu a violência como uma convergência de extremismo de ultraesquerda e populações delinquentes dos subúrbios. Trump e Vance apoiaram publicamente Marine Le Pen, e a agitação aumentou a pressão sobre Emmanuel Macron seis meses antes de uma eleição em abril para escolher seu sucessor. Aparentemente, a expertise em política externa do GOP agora se estende à política eleitoral francesa.

Quando Trump partiu para o comício no Kansas na segunda-feira, o presidente dos EUA disse aos repórteres na Casa Branca que havia alertado Macron de que ele estava "cometendo um grande erro". "O mundo inteiro estava entrando, e como você sabe, Paris vai ser uma cidade muçulmana muito em breve, e esse não era o acordo", disse ele, acrescentando: "Nós fechamos nossas fronteiras. Ele não." Pode-se apenas imaginar a reação de Macron a esse conselho útil.

Antes de Trump subir ao palco em Park City, Kansas, telões gigantes exibiram cerca de 10 minutos de cobertura da Fox News sobre a agitação que tomou conta de Paris e outras cidades, incluindo comentários que culpavam os problemas pelas políticas de imigração do governo francês. Porque nada diz "preparação para comício" como uma montagem curada de notícias a cabo.

As manifestações na França começaram semanas atrás, quando estudantes do ensino médio começaram a marchar contra a escassez de professores, salas de aula em ruínas e um sistema de admissão universitária opaco. A CGT, um dos maiores sindicatos da França, apoiou o movimento e pediu preços mais baixos, pensões mais altas e melhores salários. A raiva desde então se ampliou para os preços dos combustíveis, que subiram desde que ataques dos EUA efetivamente fecharam o Estreito de Ormuz, e outras queixas econômicas. Em outras palavras: é complicado, e definitivamente não redutível a um adesivo de para-choque.

Com as eleições de meio de mandato se aproximando, a agitação na França oferece a Trump uma oportunidade política familiar: a chance de transformar uma crise do outro lado do Atlântico em um argumento a favor das políticas de imigração linha-dura que ajudaram a impulsionar o retorno de Trump à Casa Branca. "Se você importa o terceiro mundo, você se torna o terceiro mundo", postou a conta oficial da Casa Branca no X mais cedo naquele dia. Porque sutileza é para quem perde eleições.

JD Vance e uma série de políticos republicanos se alinharam para fazer um argumento semelhante