Há duas semanas, numa rua de Dublin, Yves Sakila morreu depois de ser imobilizado por seguranças por quase cinco minutos. O homem de 35 anos, nascido no Congo, havia sido acusado de furtar um frasco de perfume de uma loja de departamentos. Quando a polícia chegou, Sakila já estava morto. A Dra. Ebun Joseph, relatora especial da Irlanda para igualdade racial e racismo, chama isso de 'momento George Floyd' do país — um marco sombrio que nenhuma nação aspira alcançar.
O incidente destruiu o mito confortável de que a Irlanda é de alguma forma imune aos excessos raciais violentos vistos em outros lugares, especialmente nos Estados Unidos. A Dra. Joseph aponta para uma crença no 'excepcionalismo irlandês' em relação à raça, enraizada na própria história de colonização britânica da Irlanda. 'Isso não acontece na Irlanda', dizem as pessoas a si mesmas, segundo ela. Mas acontece. Ela também nota o silêncio perturbador dos espectadores que assistiram por 4 minutos e 44 segundos sem intervir. 'Não ouvi pessoas dizerem: "Não, pare, chega"', diz ela. 'Isso precisa ficar gravado em nossas memórias.'
A Dra. Joseph expressa profunda frustração com a resposta do estado. A autópsia foi inconclusiva, e a Garda (polícia irlandesa) enfatizou repetidamente que Sakila derrubou um idoso no chão enquanto fugia dos seguranças — uma alegação que a Dra. Joseph diz ter servido como distração. Ela e outros enfrentaram ataques online de pessoas argumentando: 'Você está falando de alguém que era um ladrão, não está perguntando sobre o idoso que foi derrubado.' A Dra. Joseph considera as acusações insuficientemente apoiadas. 'Seria ótimo se pudéssemos acreditar no que ouvimos', diz ela, mas acrescenta que a confiança é escassa. O que é verificável pelas imagens: cinco seguranças imobilizaram Sakila com o que parece ser força excessiva, levando à sua morte. Isso levanta uma questão óbvia: como uma autópsia pode ser inconclusiva nessas circunstâncias?
O racismo irlandês, argumenta a Dra. Joseph, é insidioso porque se esconde por trás de preocupações com imigração e escassez de moradias — com os imigrantes sendo convenientemente culpados por ambos. Ela aponta uma inconsistência gritante: a maior população imigrante da Irlanda vem do Reino Unido, e imigrantes brancos são tratados como 'mais bem-vindos, mais aceitáveis' do que chegadas de países de maioria negra. 'Se não estamos reclamando da imigração do Reino Unido, isso nos mostra que a imigração não é o problema. É sobre um conjunto de pessoas.'
O clima na Irlanda azedou rapidamente. No ano passado, uma série de ataques aterrorizou comunidades imigrantes em Dublin, seguidos por protestos violentos em frente a hotéis de asilo. Essa hostilidade anti-imigração criou um sentimento generalizado de 'insegurança e falta de segurança' entre os negros, independentemente de serem ou não imigrantes. Na época de sua morte, Sakila vivia na Irlanda há mais de 20 anos.
A Dra. Joseph acredita que o problema é profundo — até o coração do establishment. No entanto, não há um reconhecimento generalizado de uma crise grave de racismo. 'Você não pode consertar o que não aceita, o que não consegue nomear, o que não identifica', diz ela. 'Mesmo em altos cargos, em escritórios do governo — pessoas que deveriam saber melhor — ainda argumentam', com alguns alegando que o racismo não é real. Quando ela mostra a colegas os abusos racistas que recebe online, alguns descartam como bots dos EUA. 'A negação é um grande problema.'
A morte de Sakila poderia finalmente forçar um acerto de contas? A Dra. Joseph espera que sirva como um alerta — mas suas dúvidas são audíveis. Ela adverte sobre a reação inevitável que os negros enfrentam por se manifestarem. 'Há um preço alto a pagar por falar', diz ela. 'Você é silenciado, desafiado, acusado de não ser grato. Por que deveríamos ser gratos quando o racismo — pessoal e estrutural — ainda está acontecendo na sua cara?'
No entanto, a esperança surge quando ela fala da geração mais jovem de irlandeses negros, que mostra uma confiança recém-descoberta e propriedade de suas identidades. 'Muitos jovens negros estão se manifestando sobre suas'