Os líderes da França e do Canadá prometeram laços mais estreitos para enfrentar tensões geopolíticas crescentes, mudanças climáticas e a erosão dos valores democráticos, após uma reunião em um território francês bem na costa atlântica do Canadá. Nada diz "relação especial" como uma cúpula organizada às pressas em um pequeno arquipélago que Donald Trump recentemente cobriu com a bandeira americana nas redes sociais.

A visita a Saint-Pierre e Miquelon por Emmanuel Macron e Mark Carney marcou a primeira viagem de um presidente francês desde 2014 e a primeira de um primeiro-ministro canadense. Aconteceu apenas semanas depois de Trump postar uma imagem mostrando as ilhas, junto com todo o Canadá, Groenlândia, Islândia, México, América Central e Caribe, cobertos pela bandeira dos EUA e rotulados como "Estados Unidos da América". A sutileza, como sempre, continua sendo o ponto forte da administração Trump.

Ottawa tem buscado laços mais estreitos com a UE em meio a uma guerra comercial cada vez mais acrimoniosa com os EUA. "Nossas sociedades estão sendo abaladas por novas tempestades: as convulsões causadas pelas mudanças climáticas, a erosão das normas democráticas e novas ameaças à nossa soberania", disse Carney em um comunicado ao lado de Macron no domingo. "Chegou a hora de fortalecer nossos laços." Porque nada foca a mente na soberania como alguém casualmente te anexando no Instagram.

Macron acrescentou que os dois aliados concordaram em forjar laços mais estreitos em setores que vão do espaço e clima à energia. "Ambos acreditamos na democracia, no Estado de direito, no respeito ao direito internacional, no respeito ao comércio livre e justo, na ciência como base para nossas decisões e na autonomia estratégica que defendemos", disse o presidente francês. Era uma lista tão virtuosa que poderia ter sido escrita por um comitê de bibliotecários.

Diplomatas disseram que a visita de Macron, que estava a caminho da assembleia geral anual da ONU de líderes mundiais, carregava peso simbólico após a postagem de Trump nas redes sociais. Respondendo a perguntas sobre a imagem, Macron descartou qualquer noção de que os territórios não poderiam ser franceses, dizendo que não precisava reafirmar esse ponto todos os dias só porque "as pessoas têm ideias estranhas ou dizem coisas estranhas". Uma aula de diplomacia em não morder a isca.

Para a França, Saint-Pierre e Miquelon é estrategicamente importante devido à sua localização na porta dos EUA e do Ártico. O território também ocupa um lugar-chave na cooperação da França com o Canadá, inclusive em energia. Macron, cujo governo enfrenta pressão crescente em casa devido ao aumento dos preços dos combustíveis, disse que as conversas abriram a porta para discussões bilaterais visando fechar acordos concretos. Paris espera que o Canadá amplie suas exportações de gás natural liquefeito para a Europa em vez de principalmente para a Ásia. "Os projetos canadenses de gás natural liquefeito podem ajudar. Eles são importantes para a Europa", disse Macron. Porque nada diz "independência energética" como enviar gás passando pelo país que acabou de reivindicar suas ilhas em um mapa.

Os dois líderes também discutiram a relação do Canadá com a UE depois que o bloco propôs que Ottawa se tornasse seu primeiro membro associado, algo que Macron disse que a França apoiava. Trump ameaçou a UE com "tarifas sérias" e uma paralisação do comércio após a proposta - uma ideia que ele ridicularizou como "risível". O sentimento, suspeita-se, é mútuo.

Qualquer movimento em direção a uma integração mais profunda provavelmente enfrentará obstáculos. Mais de uma década depois que a UE e o Canadá concordaram com o Acordo Econômico e Comercial Abrangente, e nove anos após o início de sua aplicação provisória, vários estados-membros da UE ainda não ratificaram o acordo, incluindo a França. Então, enquanto o simbolismo era impecável, a papelada permanece, como sempre, presa em algum arquivo em Bruxelas.