Em uma reviravolta que ninguém previu, cientistas descobriram que o interior de Marte não é apenas uma bola uniforme de rocha - ele tem um desequilíbrio de temperatura que faria seu termostato comum chorar. O interior sul do planeta parece estar de 200 a 400 graus Celsius mais quente do que a metade norte, e pode até estar parcialmente derretido. Essa revelação, publicada na Nature em 27 de agosto, oferece uma nova janela para a história geológica do Planeta Vermelho, incluindo aqueles dias áureos em que pode ter abrigado vida.

Alexander Berne, ex-aluno da Caltech (PhD '26) agora na Universidade do Arizona, liderou o estudo. Ele desenvolveu um modelo que usa variações sutis na gravidade para espiar o interior de corpos planetários e o aplicou a Marte. A equipe analisou décadas de dados de três missões marcianas: Mars Global Surveyor, Mars Odyssey e Mars Reconnaissance Orbiter. Ao rastrear pequenas mudanças nas velocidades das espaçonaves, eles reconstruíram o campo gravitacional ao redor de Marte.

Usando uma técnica chamada tomografia de marés, eles estudaram como a atração gravitacional do Sol em Marte muda com as estações - porque Marte tem uma órbita elíptica e um eixo inclinado, porque não - e construíram um modelo do interior do planeta. "Cientistas geralmente assumem que os interiores de corpos planetários são geralmente simétricos esfericamente, mas isso não é necessariamente verdade", diz Berne. "À medida que obtemos mais dados de gravidade, podemos determinar as complexidades tridimensionais da estrutura interna de um planeta."

Marte sempre foi um conto de dois hemisférios: o sul é montanhoso e cheio de crateras, o norte é plano e baixo. Agora sabemos que o contraste vai fundo - tipo, centenas de graus de profundidade. Esse calor oculto pode explicar outros mistérios marcianos, como as assinaturas magnéticas incomuns em minerais ricos em ferro no sul, e por que as ondas sísmicas da missão InSight da NASA perdem energia mais rápido lá. "A dicotomia que vemos entre norte e sul é importante de entender porque dá informações sobre processos que podem ter influenciado a hidrologia de Marte, incluindo a formação de bacias que podem ter contido água", diz o coautor Amirhossein Bagheri, pós-doc da Caltech e ex-membro da equipe InSight.

Quanto ao que causou essa anomalia térmica, os pesquisadores têm alguns palpites: um impacto gigante que liberou calor do norte, convecção espontânea no manto sul, ou estruturas geológicas espessas prendendo calor como um sótão mal isolado. O artigo, intitulado "Tidal Tomography Reveals a Thermal Anomaly Beneath Mars's Crustal Dichotomy", inclui um verdadeiro quem é quem da ciência planetária de Brown, Arizona, NASA Goddard, Academia Sinica, Roma, Delft, UCLA, Texas, Colorado Boulder e UC Santa Cruz.

Então, Marte não é apenas uma rocha fria e morta - é uma rocha fria e morta com uma onda de calor. Quem diria?