A Mata Atlântica brasileira, o bioma mais castigado do país e lar de 80% da população – incluindo cidades como Rio de Janeiro e São Paulo – registrou os menores números de desmatamento desde o início dos registros, há 40 anos. Em 2025, a floresta perdeu 8.658 hectares, a primeira vez que o total anual fica abaixo de 10.000 hectares desde 1985. Ambientalistas comemoram com cautela, sugerindo que isso pode abrir caminho para o "desmatamento zero" em poucos anos, embora sejam rápidos em apontar as potenciais armadilhas que podem reverter a tendência.
Uma dessas armadilhas é o chamado "projeto de devastação" recentemente aprovado pelo Congresso brasileiro, que enfraquece drasticamente a legislação ambiental. A outra é a possibilidade de um governo de extrema direita retornar ao poder nas eleições presidenciais de outubro, com Flávio Bolsonaro – senador e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro – empatado nas pesquisas com o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "É um cenário muito preocupante", disse Luís Fernando Guedes Pinto, diretor executivo da ONG SOS Mata Atlântica, alertando que uma vitória de Bolsonaro pode significar o Brasil desperdiçar sua chance de ser líder ambiental global. Durante a administração do Bolsonaro pai (2019-2023), o desmatamento disparou e uma corrida do ouro invadiu terras indígenas – um destino que muitos temem que se repita se seu filho, que prometeu seguir o mesmo manual, assumir o poder.
Os novos dados, divulgados na quinta-feira, vêm de dois sistemas de monitoramento administrados pela SOS Mata Atlântica e parceiros. Um, abrangendo quatro décadas, mostrou uma queda de 40% no desmatamento de 2024 para 2025, de 14.366 para 8.658 hectares – um contraste gritante com os mais de 20.000 hectares perdidos anualmente durante os dois últimos anos de Bolsonaro. O outro, um sistema mais novo que monitora desde 2022, registrou um declínio de 28%, de 53.303 para 38.385 hectares, o menor em sua curta história. A diferença, explica a ONG, decorre dos satélites usados: o mais novo é mais preciso, o mais antigo oferece uma visão histórica mais longa.
Apesar do progresso, Pinto observa que "o desmatamento ainda é alto" no bioma, enfatizando que "na Mata Atlântica, cada fragmento perdido faz uma enorme diferença". O bioma é o terceiro maior do Brasil, depois da Amazônia e do Cerrado, mas é de longe o mais urbanizado e degradado – apenas 24% de sua cobertura florestal original permanece, contra 80% da Amazônia e 50% do Cerrado. Ainda assim, se a atual tendência de queda se mantiver – impulsionada pela pressão pública, mobilização da sociedade civil, políticas ambientais e fiscalização – Pinto acredita que a floresta pode atingir o "desmatamento zero" em três anos.
No caminho está a nova lei, amplamente considerada o maior golpe na legislação ambiental brasileira desde que o licenciamento se tornou exigência legal na década de 1980. Lula vetou partes dela, mas um Congresso amplamente conservador derrubou esses vetos no final de 2025. A lei remove a exigência de aprovação do órgão ambiental federal antes que os estados possam autorizar o desmatamento, deixando as decisões inteiramente para as autoridades locais – uma medida agora contestada no Supremo Tribunal Federal. Malu Ribeiro, diretora de políticas públicas da SOS Mata Atlântica, chamou a lei de "distorção" que coloca o Brasil em desacordo com o Acordo de Paris e pode piorar os desastres climáticos. "Enfraquecer os instrumentos de proteção agora arrisca tudo o que construímos ao longo de anos", acrescentou.