Delegados de uma conferência global inovadora sobre a eliminação gradual dos combustíveis fósseis receberam um alerta severo neste fim de semana: a transição energética não deve se tornar uma nova desculpa para saquear territórios indígenas.
Os altos preços do petróleo e a guerra no Oriente Médio tornaram as tecnologias renováveis mais atraentes em todo o mundo, mas líderes indígenas na primeira conferência mundial em Santa Marta, Colômbia, deixaram claro que os benefícios econômicos, de segurança e climáticos não devem vir às custas de ambientes naturais bem protegidos. A conferência visa "criar uma coalizão dos ambiciosos" e injetar energia nova nas cambaleantes negociações climáticas globais.
Mais de 50 países, dezenas de governos subnacionais e milhares de representantes da sociedade civil estão participando, tendo organizado este evento fora de um processo da ONU tão atolado por lobistas da indústria que a declaração final da recente COP30 no Brasil nem sequer mencionou as palavras "combustíveis fósseis".
O Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (IISD) publicou uma pesquisa mostrando que, em 2024, os combustíveis fósseis receberam globalmente US$ 1,2 trilhão em subsídios e outros apoios públicos, contra apenas US$ 254 bilhões para energia limpa. Angela Picciariello, pesquisadora sênior do IISD, observou: "Os governos precisam parar de cometer os mesmos erros e esperar resultados diferentes. Quando os preços da energia disparam, o instinto é muitas vezes gastar mais dinheiro público em combustíveis fósseis. Mas essa abordagem é cara, difícil de desfazer e deixa as pessoas expostas à próxima crise."
O debate em Santa Marta tem sido mais livre e criativo do que encontros anteriores, com participantes indígenas detalhando como eles e suas terras foram afetados negativamente pelos combustíveis fósseis. "Quando os extrativistas chegam, eles não destroem apenas a natureza, mas também nosso modo de vida", disse Luene Karipuna, líder indígena no estado do Amapá, Brasil.
Ao endossar a erradicação dos combustíveis fósseis, vários palestrantes indígenas expressaram preocupações de que as alternativas — turbinas eólicas, painéis solares e baterias de carros elétricos — dependem todas da mineração de minerais críticos. "Não se trata apenas de combustíveis fósseis. Porque depois disso, o que vem a seguir? Eles encontrarão alguma outra razão para vir atrás de nossas terras e minerais", disse Patricia Suárez, da Organização Nacional dos Povos Indígenas da Amazônia Colombiana. "Não podemos cortar um problema apenas para abrir a porta para outro."
Outros pediram uma discussão mais ampla que abrangesse natureza e saúde. "A transição deve ser em direção a florestas em pé e água doce", disse Gregório Mirabal, do povo indígena Kurripako da Venezuela. "Se não mudarmos este modelo de morte, ficaremos sem água, sem saúde."
Irene Vélez Torres, diretora da Agência Nacional Ambiental da Colômbia, observou que os grupos indígenas têm um papel mais central em Santa Marta do que nas cúpulas da ONU. Eles realizaram seu próprio fórum no domingo, alimentando sugestões no documento principal da "Cúpula dos Povos" para as reuniões ministeriais de alto nível que começam na terça-feira. "O extrativismo deixou feridas profundas nos territórios das comunidades indígenas", disse ela.