Moradores de El Obeid, no Sudão, já nem conseguem contar os ataques de drones, mas têm certeza de que são muitos
Em El Obeid, Sudão, ataques de drones são tão frequentes que os moradores os contam como ovelhas - exceto que as ovelhas estão matando pessoas e destruindo infraestrutura, e a comunidade internacional está sendo instruída a atender o telefone.
Fatima perdeu a conta do número de ataques de drones na cidade sitiada de El Obeid, no Sudão, mas tem certeza de que os ataques do último fim de semana foram os mais violentos até agora. Os drones atingiram escolas e postos de combustível, matando mais de 20 pessoas, incluindo estudantes. "Nos últimos meses, ver 40 ou 45 drones é normal. Você pode literalmente contá-los", disse a voluntária de ajuda humanitária, cujo nome foi alterado por medo de retaliação. Porque quando drones são a norma, você se adapta.
El Obeid, uma cidade de meio milhão de habitantes, é um campo de batalha crucial na guerra entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as paramilitares Forças de Apoio Rápido (RSF). Os ataques realizados pelas RSF levaram a ONU e outras agências a alertar sobre o risco de atrocidades. Localizada entre áreas controladas pelas RSF na região oeste de Darfur e regiões controladas pelo exército no leste, El Obeid sofreu repetidos ataques de drones em sua infraestrutura. O exército luta para impedir que o grupo paramilitar estabeleça outro bloqueio após um cerco em fevereiro do ano passado.
Pelo menos 45 pessoas foram mortas e 41 feridas em 15 ataques de drones na cidade e áreas vizinhas de 6 a 28 de junho, segundo o escritório de direitos humanos da ONU. Há crescentes temores de uma repetição do massacre na cidade de El Fasher no ano passado, quando combatentes das RSF saíram em fúria após capturar a cidade no final de um cerco de 18 meses. A Anistia Internacional divulgou um relatório na quarta-feira dizendo que as RSF cometeram limpeza étnica e crimes contra a humanidade em sua campanha para capturar El Fasher. Uma missão independente de apuração de fatos da ONU já havia dito que a tomada da cidade pelas RSF mostrava "indícios de genocídio" contra comunidades não árabes.
Na sexta-feira, Volker Türk, alto comissário da ONU para direitos humanos, discursou para delegados em Genebra durante um debate urgente do Conselho de Direitos Humanos da ONU convocado pelo Reino Unido e apoiado por Alemanha, Irlanda, Noruega e Países Baixos. Ele disse: "Os sinais de El Obeid são claros e inequívocos: outra catástrofe de direitos humanos está se desenrolando no Sudão. Isso não é um exercício. É um alerta vermelho que precisa chegar às mesas de chefes de Estado e governo em todo o mundo. Seus telefones devem estar a todo vapor nos próximos dias e semanas, com ideias sobre como prevenir crimes de atrocidade em El Obeid e em outros lugares em Kordofan."
El Obeid abriga uma divisão de infantaria das SAF e uma base aérea, além de cerca de 100.000 refugiados deslocados pela violência. Especialistas destacaram concentrações significativas de tropas das RSF ao redor da cidade e alertam para uma iminente ofensiva terrestre. Um relatório divulgado na segunda-feira pelo Laboratório de Pesquisa Humanitária de Yale encontrou danos à geração de eletricidade, instalações de armazenamento de combustível e ao mercado principal que eram "consistentes com bombardeio intencional de infraestrutura civil necessária para a sustentação da vida". O relatório também observou um aumento de mais de 700 estruturas temporárias em campos de deslocados internos em El Obeid em um mês, "consistente com um recente influxo de populações civis altamente vulneráveis para a cidade". Disse que as SAF construíram cerca de 50 km de posições defensivas, sugerindo que esperavam um cerco.
Nohad Eltayeb, assistente de pesquisa sênior do grupo de monitoramento de conflitos Acled, disse que registrou 27 ataques de drones no mês passado ao redor de El Obeid, o maior total mensal desde o início do conflito em 2023. Em um diário de áudio para o grupo de defesa dos direitos humanos Avaaz, Fatima falou sobre viver no limite devido a ataques de drones em hospitais, postos de combustível e outras instalações. Um ataque na semana passada atingiu a principal usina elétrica da cidade, causando apagões na maior parte da cidade, disse ela. Drones também atingiram pessoas reunidas para compartilhar conexões de internet Starlink quando as redes de telecomunicações estão fora do ar, acrescentou. "Não consigo começar a descrever como a situação está terrível agora", disse Fatima. "Até a maneira como as pessoas falam nos funerais é diferente. Em vez de rezar pelos falecidos, elas..."
The Good Times
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