A Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias (CEPI) anunciou na segunda-feira que vai desembolsar pouco mais de US$ 60 milhões em três candidatos a vacina contra o ebolavírus Bundibugyo (BDBV), que atualmente está dando uma festa bastante desagradável na República Democrática do Congo. A maior fatia – até US$ 50 milhões – vai para a Moderna, sediada nos EUA, que usará sua plataforma de mRNA (sim, a mesma que nos trouxe a vacina contra a COVID-19) para levar um candidato a BDBV através do desenvolvimento pré-clínico e testes clínicos de Fase 1. O financiamento também permite que a Moderna aumente a fabricação e se prepare para ensaios maiores de Fase 2/3, caso os primeiros testes não terminem em fracasso espetacular. "Acreditamos que nossa plataforma de mRNA pode desempenhar um papel importante na resposta rápida a ameaças de doenças infecciosas emergentes", disse o CEO da Moderna, Stéphane Bancel, provavelmente enquanto segurava um cheque.

A CEPI também está jogando US$ 3,2 milhões para a Iniciativa Internacional para a Vacina contra a AIDS, que está trabalhando em uma vacina usando a mesma tecnologia da vacina aprovada contra Ebola da Merck, Ervebo – exceto que aquela tem como alvo a cepa Zaire do ebolavírus. Outros US$ 8,6 milhões vão para a Universidade de Oxford e o Instituto Serum da Índia, que estão implantando sua plataforma baseada em adenovírus, a mesma que usaram para sua vacina contra a COVID-19. Porque nada diz "resposta urgente a surtos" como tirar a poeira do mesmo manual.

Atualmente, existem duas vacinas licenciadas contra Ebola – Ervebo e Zabdeno/Mvabea, da Johnson & Johnson – mas ambas têm como alvo apenas a cepa Zaire, que causou a maioria dos surtos. A cepa Sudão vem em segundo lugar. A cepa Bundibugyo? Este é apenas o terceiro surto que ela já causou, então, naturalmente, não existem vacinas ou tratamentos licenciados para ela. A falta de intervenções médicas é apenas um dos muitos problemas enfrentados pelos oficiais de saúde, que também têm que lidar com detecção tardia de surtos, conflitos armados, alta mobilidade populacional e uma necessidade premente de ajuda humanitária na região afetada da RDC.

Na sexta-feira, a Organização Mundial da Saúde relatou 1.041 casos (135 confirmados, 906 suspeitos) e 241 mortes (18 confirmadas, 223 suspeitas) do surto. Então sim, a urgência é justificada, mesmo que o financiamento pareça um pouco como chegar a um incêndio com uma mangueira de jardim.