Nas ruas secundárias de Porto Alegre, capital do estado do sul do Brasil, ainda se veem sinais da enchente devastadora que varreu a cidade há dois anos: entulhos espalhados, casas alagadas e negócios destruídos. Em maio de 2024, as inundações mataram 183 pessoas no estado do Rio Grande do Sul e deslocaram mais de 600 mil. O bairro Sarandi foi um dos mais atingidos de Porto Alegre, com níveis de água chegando a 5 metros acima do normal, submergindo completamente muitas de suas ruas.

“A maioria das pessoas ainda sofre as consequências de saúde mental da enchente”, diz Luís Rogério “Jamaika” Machado, líder comunitário em Sarandi. “Elas perderam absolutamente tudo. Incapazes de reconstruir suas casas, a maioria ficou profundamente deprimida.” No mês passado, meteorologistas anunciaram o iminente retorno do El Niño, o fenômeno natural causado pelo aumento das temperaturas da superfície do mar no Pacífico equatorial, mas cujos efeitos são muito agravados pela crise climática. O El Niño, que perturba os padrões climáticos em todo o globo, provavelmente causará chuvas extremas e inundações no sul do Brasil.

Jamaika vive em um quilombo urbano, um assentamento brasileiro fundado por pessoas escravizadas fugidas ou seus descendentes. O Quilombo dos Machado é um dos 11 territórios desse tipo em Porto Alegre e serviu como centro de solidariedade para toda a área de Sarandi durante a enchente, distribuindo comida, roupas e assistência médica para milhares de famílias. Agora, as comunidades atingidas pelas enchentes em Porto Alegre, embora ainda se recuperem de um dos desastres climáticos mais mortais do Brasil, enfrentam novas ameaças do El Niño em desenvolvimento deste ano, enquanto defesas contra enchentes incompletas e esquemas de realocação do governo alimentam medos de deslocamento e aprofundam uma crise de justiça climática.

Sarandi, junto com outras áreas mais pobres da cidade, é um desses exemplos. Apesar de estar entre os menos responsáveis pelas emissões que causam o colapso climático, as pessoas de lá sofreram os piores efeitos da enchente de 2024. Esse desequilíbrio levou o grupo de pesquisa de Porto Alegre do Observatório das Metrópoles, parte dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT) do Brasil, a chamar a enchente de crise de justiça climática. Agora, essas mesmas pessoas se preparam para mais um desastre induzido pelo clima.

As primeiras tempestades causadas pelo último El Niño chegaram ao Rio Grande do Sul no mês passado, com chuva e ventos fortes perturbando a região. O aumento dos níveis dos rios afetou pelo menos 200 municípios, deixando 1.800 pessoas desabrigadas e muitas outras indignadas com a inação do governo nos últimos dois anos. “O El Niño atinge o pico em dezembro, janeiro e fevereiro”, diz Wilfran Moufouma-Okia, chefe de previsão climática da Organização Meteorológica Mundial. “Então estamos apenas no começo.” Para as pessoas em Porto Alegre, as manchetes trazem medos renovados.

“Nossa casa foi completamente submersa. Perdemos tudo”, diz Suelen Telles, professora de pré-escola que mora em Sarandi. “Desde então, voltamos para nossa casa, e estamos apavorados em perder tudo de novo. Todos na nossa rua estão com medo.” Depois de perder sua casa em 2024, Solange Rodrigues Correa se mudou para a casa do neto na Ilha Grande dos Marinheiros, um arquipélago nas margens da cidade. As notícias a fizeram se preocupar com o retorno das águas da enchente, e Correa, que sofreu um derrame devido ao estresse das enchentes de 2024, não dorme há várias noites seguidas. “Mais uma vez, o que será de nós?”, diz ela.

Rudimar Dal Asta, padre na Ilha Grande dos Marinheiros e um dos líderes comunitários que ajudaram em missões de resgate durante a enchente anterior, diz que o governo deu garantias de que há um plano de evacuação, mas eles ainda não o viram. “Nossa rota de fuga é correr para a ponte, assim como fizemos em 2024”, diz ele. Nos últimos meses, Porto Alegre reparou comportas, substituiu tampas de bueiros e reconstruiu uma seção do dique de Sarandi. O prefeito Sebastião Melo anunciou que melhorias nas bombas de