A ONU tem um novo relatório, e acontece que quando se trata de violência sexual em conflitos, homens e meninos têm sofrido silenciosamente nas sombras enquanto todos os outros olhavam para o outro lado. Um prisioneiro de guerra ucraniano libertado em 2025 após três anos de detenção trouxe consigo memórias de estupro, nudez forçada, espancamentos e choques elétricos nos genitais - porque aparentemente, isso é uma coisa que acontece, e tem acontecido muito.

De acordo com o relatório do Secretário-Geral da ONU, mulheres e meninas representaram 93% das vítimas verificadas de violência sexual relacionada a conflitos em 2024, mas homens e meninos representaram 7%. Isso ainda é muita gente, e os números reais são provavelmente muito maiores, já que estima-se que 90-95% dos abusos sexuais contra homens e meninos em situações de conflito nunca são registrados. Porque nada diz 'justiça' como um crime praticamente invisível.

Instalações de detenção são um local privilegiado para esse tipo de abuso. Na Ucrânia, a ONU verificou 310 casos de VSCR, 280 envolvendo homens - muitos deles prisioneiros de guerra ou detidos civis. Os abusos incluíam estupro, nudez forçada, espancamentos e choques elétricos, todos usados para punir, humilhar e extrair informações. Porque tortura não basta; tem que ser sexual também.

Isso não é apenas um problema da Ucrânia. A ONU documentou sobreviventes homens em conflitos em Gaza, Cisjordânia, Sudão, República Democrática do Congo, Líbia, Síria, Iêmen e Haiti. Mas os casos verificados são estimativas conservadoras, porque a insegurança, o acesso restrito e o medo de retaliação mantêm muitos sobreviventes em silêncio.

Por que a subnotificação? Expectativas sociais em torno da masculinidade, homofobia, medo de ser percebido como fraco e atenção institucional limitada aos sobreviventes homens desempenham um papel. Além disso, homens e meninos frequentemente descrevem a violência sexual como tortura, especialmente após a detenção, o que dificulta que os sistemas humanitários e de justiça identifiquem as necessidades específicas. É quase como se a linguagem importasse.

Pesquisas no leste da República Democrática do Congo mostram a escala do problema: em um estudo, 23,6% dos homens relataram ter sofrido violência sexual quando perguntados diretamente, e quase dois terços disseram que isso aconteceu no contexto de conflito. Isso é um monte de homens que estavam apenas esperando alguém perguntar.

Para os sobreviventes, redes de apoio podem fazer uma enorme diferença. Um sobrevivente ucraniano disse: 'Por muito tempo, pensei que o que aconteceu comigo não tinha lugar para ser falado. Estar aqui, com outros que entendem, mudou isso. Isso me deu um caminho a seguir.' Porque curar é mais fácil quando você não está sozinho no escuro.

A ONU está tentando melhorar as coisas. A UNIDIR recomenda uma melhor coleta de dados que permita explicitamente que homens e meninos divulguem violência sexual, juntamente com a participação dos sobreviventes e apoio psicossocial adaptado às suas necessidades. Na Ucrânia, o projeto Ação Unida para Empoderar Sobreviventes apoiou 160 sobreviventes em 2025, incluindo 69 homens, através de aconselhamento psicológico, reabilitação e assistência personalizada. Eles até ajudaram a estabelecer redes de sobreviventes homens para apoio entre pares e advocacia.

O Secretário-Geral enfatiza que os sobreviventes não são um grupo homogêneo, e as respostas devem refletir diferenças de idade, gênero, circunstâncias e necessidades individuais. No Sudão, iniciativas apoiadas pela ONU estão criando espaço para diálogo sobre as experiências de homens e meninos, e o ACNUR emitiu orientações para trabalhadores humanitários apoiarem sobreviventes homens em ambientes de refugiados e deslocamento.

Então, sim, mulheres e meninas continuam sendo desproporcionalmente afetadas, e isso ainda é uma crise. Mas reconhecer homens e meninos como vítimas de violência sexual em conflitos não tira isso - apenas fecha uma lacuna na resposta. Porque todos merecem ser vistos, apoiados e ouvidos, mesmo que tenha sido preciso um relatório global para notar.